Pastoral Familiar – A Preparação para o Matrimônio na Amoris Laetitia

Resumo da palestra no VI Congresso da Pastoral Familiar do Regional Centro Oeste

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“Convido as comunidades cristãs a reconhecerem que é um bem para elas mesmas acompanhar o caminho de amor dos noivos.” (Papa Francisco, AL207)

A Pastoral Familiar articula suas ações em três eixos, o Setor Pré-Matrimonial, o Setor Pós-Matrimonial e o Setor Casos Especiais. Todos os setores possuem a mesma importância, pois se direcionam às famílias e aos indivíduos em diferentes etapas da vida, mas todas igualmente dignas.

Colocando o foco deste artigo no Setor Pré-Matrimonial, lembro que este setor é convidado a organizar seus trabalhos também sobre três eixos, a Preparação Remota, a Preparação Próxima e a Preparação Imediata.  Tais eixos ficaram bem definidos a partir da Exortação Apostólica Familiaris Consortio (1981), do documento Preparação para o Sacramento do Matrimônio (1996) e do Diretório da Pastoral Familiar (2004), mas começaram a ser pensados pela Igreja há cerca de 40 anos, quando reuniões de conferências episcopais, como a CNBB e CELAM, já apontavam a necessidade de tal estrutura.

Recentemente, a Preparação para o Matrimônio ganhou novo destaque, pois foi um dos eixos de trabalho do Sínodo dos bispos sobre a família que aconteceu em duas etapas em 2014 e 2015 (também considerado como dois sínodos, sendo o primeiro extraordinário e o segundo ordinário). Em 2016, o Papa Francisco publicou a Exortação Apostólica Amoris Laetitia, que pode ser considerada uma resposta ao sínodo. Nela, a preparação para o Matrimônio é citada em vários pontos, mas recebe também um subcapítulo inteiro dedicado ao tema, dos parágrafos 204 ao 216, intitulado “Guiar os noivos no caminho de preparação para o matrimônio”.

Posso dizer que o Papa Francisco não traz novidades sobre o tema na Amoris Laetitia, mas faz uma revisão das orientações da Igreja de décadas sobre a preparação para o Matrimônio, além de pedir ainda mais empenho: “a complexa realidade social e os desafios, que a família é chamada a enfrentar atualmente, exigem um maior empenhamento de toda a comunidade cristã na preparação dos noivos” (AL 206).

Na Amoris Laetitia também ficam reforçadas as três etapas: a Remota, a Próxima e a Imediata. A Preparação Remota começa no ventre e perpassa a vida até que um namoro esteja se transformando em noivado, sendo constituída por todas as ações que estimulem a vocação matrimonial e trabalhem em favor dela, começando na vivência dos pais e passando pela catequese, crisma, encontros de namorados e outras iniciativas.

E sobre a etapa próxima, o Papa nos orienta que “a preparação dos que já formalizaram o noivado, quando a comunidade paroquial consegue acompanhá-los com bom período de antecipação, deve dar-lhes também a possibilidade de individuar incompatibilidades e riscos” (AL209), retomando o conceito de acompanhar. Ele fala, insistentemente, no acompanhamento dos noivos, o que é a chave para uma boa catequese matrimonial. Acompanhar é um dos verbos mais fortes na exortação e que está colocado 19 vezes em todo o texto enquanto o substantivo “acompanhamento” está colocado 16 vezes. É o acompanhamento, o ato de acompanhar, que permite a criação de fortes vínculos, necessários à Pastoral Familiar e que, no caso da Preparação Próxima, faz com que os agentes conheçam melhor os noivos e estes se sintam acolhidos a ponto de se abrirem à partilhas sinceras.

No Brasil, em 1978, o Documento número 12 da CNBB,  já falava em Preparação Remota e Próxima e que esta não pode se reduzir a um curto período antes da celebração e faz uma clara recomendação:  “O ideal é que essa preparação se estenda por um tempo razoável, acompanhando os períodos do namoro e principalmente do noivado, durante os quais se empreguem os múltiplos e variados meios para atender aos diversos aspectos que ela inclui. […] Menos formal que o “curso de noivos”, esse catecumenato pode ser realizado nas casas, acompanhando cada casal de noivos ou agrupando vários” (Parágrafo 2.4, Documento 12 CNBB).

Diante das características específicas de cada diocese e também em respeito às iniciativas regionais, o Papa não dá uma receita fixa, mas afirma que “há várias maneiras legítimas de organizar a preparação próxima para o matrimônio e cada Igreja local discernirá a que for melhor, procurando uma formação adequada que, ao mesmo tempo, não afaste os jovens do sacramento.” (AL207) Contudo, tal liberdade de organização deve ser guiada pelos princípios básicos reunidos nos vários documentos que disciplinam o tema. A Amoris Laetitia, bem como os pronunciamentos do Papa, está em total sintonia com as recomendações do documento Preparação para o Sacramento do Matrimônio (1996) ao dizer que a etapa próxima merece tempo e cuidado necessários, que seja feita de encontros frequentes e que o centro seja a doutrina natural e cristã sobre o Matrimônio. “Trata-se duma espécie de «iniciação» ao sacramento do matrimónio, que lhes forneça os elementos necessários para poderem recebê-lo com as melhores disposições e iniciar com uma certa solidez a vida familiar.” (AL207)

O Papa nos esclarece que não é questão de banir as palestras da preparação para o Matrimônio, mas de ajustá-las aos momentos mais oportunos. Elas podem e devem continuar existindo na dinâmica paroquial e nas outras etapas da preparação. Isto fica claro quando o Papa Francisco diz que “habitualmente, são muito úteis os grupos de noivos e a oferta de palestras opcionais sobre uma variedade de temas que realmente interessam aos jovens”. (AL208)

No parágrafo 211, o Papa nos orienta que a preparação próxima e a remota “devem procurar que os noivos não considerem o matrimônio como o fim do caminho, mas o assumam como uma vocação que os lança para diante, com a decisão firme e realista de atravessarem juntos todas as provações e momentos difíceis.“ (AL211)

Francisco também cita claramente a etapa que, infelizmente, é pouco conhecida no Brasil, a Preparação Imediata, necessária àqueles que passaram pela etapa próxima, que são os Encontros de Preparação para a Vida Matrimonial, e decidem prosseguir para o altar. Nesta, “é importante esclarecer os noivos para viverem com grande profundidade a celebração litúrgica, ajudando-os a compreender e viver o significado de cada gesto” (AL213).

De modo prático, a Pastoral Familiar e todos aqueles que se dedicam à preparação para o Matrimônio são convidados a refletirem, a partir deste renovado apelo da Amoris Laetitia, sobre as etapas dessa preparação e o efetivo desenvolvimento de atividades específicas para cada uma delas, partindo de questionamentos como:

  1. As três etapas são nítidas na paróquia, diocese ou regional?
  2. Quais as principais atividades desenvolvidas pela paróquia/diocese como Preparação Remota?
  3. Como está estruturada a Preparação Próxima na paróquia/diocese?
  4. O que é oferecido como Preparação Imediata?
  5. De que forma é possível acompanhar os noivos?

Encerro com mais um questionamento do Papa Francisco, feito um ano após a publicação da Amoris Laetitia:

Pergunto-me quantos destes jovens que frequentam os cursos pré-matrimoniais entendem o que significa «matrimônio», sinal da união entre Cristo e a Igreja. «Sim, sim», dizem sim, mas compreendem isto? Têm fé nisto? Estou persuadido de que é necessário um verdadeiro catecumenato para o Sacramento do matrimônio, e não se limitar a fazer a preparação mediante duas ou três reuniões e depois ir em frente.”

 

André Parreira, com sua esposa Karina, são o casal referencial do Setor Pré-Matrimonial na Assessoria Pedagógica da Comissão Nacional da Pastoral Familiar e autores do livro Matrimônio: Encontros de Preparação.

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Artigo Publicado na Revista Digital do VI Congresso da Pastoral Familiar CNBB Regional Centro Oeste

http://cnbbco.com/revistapf/2018/09/09/4-pre-matrimonio-na-amoris-laetitia/