Cursos, Encontros ou Pastoral dos Noivos?

Estas expressões são adequadas? Estes grupos são extintos com a implantação da Pastoral Familiar?

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Não é a primeira vez que recebo perguntas deste tipo. Também tomamos conhecimento que, infelizmente, em alguns locais estas questões geram até discórdias e divisões. Portanto, é mesmo importante esclarecê-las. Não darei exatamente uma resposta, mas um comentário sobre estes pontos a partir de alguns documentos da Igreja.

 

1 – Sobre  a denominação mais apropriada para a Preparação para o Matrimônio

A questão é tratada no Brasil há mais de 40 anos. O Documento número 12 da CNBB, Orientações Pastorais Sobre o Matrimônio, de 1978, já falava que a preparação não pode se reduzir a um curto período antes da celebração e faz uma clara recomendação:  “O ideal é que essa preparação se estenda por um tempo razoável, acompanhando os períodos do namoro e principalmente do noivado, durante os quais se empreguem os múltiplos e variados meios para atender aos diversos aspectos que ela inclui. […] Menos formal que o “curso de noivos”, esse catecumenato pode ser realizado nas casas, acompanhando cada casal de noivos ou agrupando vários” (Parágrafo 2.4).  Aí, note que o momento não é restrito ao noivos e como um detalhe significativo, a expressão “curso de noivos” vem escrita entre aspas.

Poucos anos depois, em 1981, na exortação Familiaris Consortio(1981), o Papa São João Paulo II faz uso da expressão Catequese Pré-Matrimonial para designar a preparação para o Matrimônio. Note que ele já se afastava da expressão “noivos” e isso acontecia (e acontece) justamente para abranger a todos que se preparam para o sacramento.  A expressão “noivos” pode ter efeito restritivo e afastar aqueles que não são noivos da forma tradicional, excluindo de um lado aqueles que ainda não oficializaram o noivado e, de outro, aqueles que já coabitam. É verdade que o termo ‘noivos’ é abrangente e pode ser aplicado a todos os que estão se preparando para o casamento, até mesmo aos que já vivem juntos, mas no entendimento popular não é assim.

A Familiaris Consortio, parágrafo 66, também deixa claro que este momento de preparação é para todos e não exclusivo aos noivos: “esta catequese renovada de todos os que se preparam para o Matrimônio cristão é absolutamente necessária, para que o sacramento seja celebrado e vivido com retas disposições morais e espirituais”.

No Brasil, importante documento que direciona o trabalho é o Diretório da Pastoral Familiar, publicado pela CNBB em 2004. Este, quando se refere à preparação próxima para o Matrimônio, parágrafo 268, menciona também entre aspas “cursos de noivos” quando apresenta a segunda possibilidade de definição para este momento, como Encontros de Preparação para a Vida Matrimonial.  E, ao invés de usar noivos, o documento usa “candidatos ao matrimônio”.

Como confirmação, recentemente o Papa Francisco vem usando a expressão catecumenato. Isto nos faz concluir que o caminho mais adequado é o de se pensar em catequese pré-matrimonial, feita através de encontros como qualquer outra catequese, através dos Encontros de Preparação para a Vida Matrimonial.

 

2 – Cursos, Encontros e Pastoral dos Noivos diante da Pastoral Familiar

O CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano) de Santo Domingo, em seu documento conclusivo, no parágrafo 222, já preconizava: “Enfatizar a prioridade e centralidade da pastoral familiar na Igreja diocesana. […] A pastoral familiar há de cuidar da formação dos futuros esposos e o acompanhamento dos cônjuges, sobretudo, nos primeiros anos de sua vida matrimonial.

Note que tal documento, publicado em 1992, pede que a Pastoral Familiar seja o centro das atividades, pois a família é a principal célula da sociedade. Além disso, outorga à Pastoral Familiar a responsabilidade da preparação para o Matrimônio. Isto não significa que ela seja a responsável por executar, mas por cuidar, ou seja, coordenar e acompanhar de forma a garantir a harmonia e integração de toda a igreja diocesana.

Por tudo isso, vemos que a Igreja propõe um trabalho mais abrangente a todos os “candidatos ao Matrimônio.” Aqui não há negação de que o trabalho dos grupos de preparação de noivos seja mesmo uma legítima pastoral a eles direcionada. Mas deve-se refletir que noivos, na forma tradicional da expressão, são uma porção dos candidatos ao Matrimônio e, todos estes, uma porção das famílias. Por isto se fala em Pastoral Familiar e, dentro desta, há o setor que cuida da preparação para o Matrimônio, o Setor Pré-Matrimonial.

Implantar a Pastoral Familiar não significa substituir trabalhos e equipes, mas harmonizar as ações de tantos grupos em favor da família. Significa que aqueles que se dedicam há anos aos noivos se sintam como parte de uma grande família e busque sintonia com ela. Os grupos que atuam em setores, especialmente no pré-matrimonial são, automaticamente, parte da Pastoral Familiar e precisam buscar formas de integração, não de exclusão.

A Pastoral Familiar não chega para assumir todos os trabalhos. Seu grande objetivo é articular e integrar as ações. Nas paróquias onde há outros movimentos, seus membros são os primeiros convidados para apoiar os trabalhos da Pastoral Familiar, sem, contudo, se desligar de seus grupos e movimentos. Os movimentos e serviços, com seus carismas e direcionamentos específicos, não precisam se transformar em Pastoral Familiar. Mas todos podem apoiá-la, o que significa apoiar as famílias, além de continuarem desenvolvendo suas atividades em seus movimentos. Detalhe é que, no caso da preparação para o Matrimônio, que é um sacramento e o alicerce das famílias segundo o projeto de Deus, o direcionamento e forma de trabalho é dado pela diocese. O documento Preparação para o Sacramento do Matrimônio (1996), no parágrafo 48, reforça o que dito no documento de Santo Domingo, apontando que a preparação “É um campo que deveria ser coordenado pelo organismo diocesano, que opere em nome do Bispo“.

E organismo que opera em nome do bispo é sempre uma pastoral,  que tem visão diocesana e de conjunto. Por isso a Pastoral Familiar pode orientar e atuar junto aos grupos paroquiais, mesmo que eles existam há muitos anos.

Então, a Pastoral Familiar não é mais um movimento pelas famílias. Mas é sinônimo de unidade de todas as iniciativas que já existem e de proposição e/ou execução de outras necessárias. Pra terminar, veja o que disse o Papa São João Paulo II, em uma de suas visitas ao Brasil: “Em cada Diocese, vasta ou pequena, rica ou pobre, dotada ou não de clero, o Bispo estará agindo com sabedoria pastoral, estará fazendo investimento altamente compensador, estará construindo, em médio prazo, a sua Igreja particular, à medida que der o máximo a uma Pastoral Familiar efetiva” (João Paulo II aos bispos do Brasil em 1980)

 

André Parreira, casado há 20 anos, pai de sete filhos, agente de Pastoral Familiar há mais de 15 anos, escritor de artigos e livros católicos. André e sua esposa, Karina Parreira, já foram casal referencial para o setor pré-matrionial na CNPF/CNBB e são autores do livro Matrimônio: Encontros de Preparação publicado pela CNPF/CNBB.