Como anda a preparação para o Matrimônio?

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Matéria da Revista Vida e Família

CNPF-CEPVF-CNBB

Out-Nov-Dez / 2016 – Assine a revista aqui

O tema Preparação para o Matrimônio voltou às manchetes dos jornais católicos e da mídia laica após ter sido um dos temas dos sínodos dos bispos em 2014 e 2015 e também ter sido realçado pelo Papa Francisco na exortação Amoris Laetitia.

Acredito que conheçamos bem a realidade que desperta tamanha preocupação da Igreja, como, por exemplo, a lenta maturação de nossa juventude, sua pouca vivência religiosa e o consequente desconhecimento do significado do Matrimônio como sacramento.

Preparar para o Matrimônio não se resume a fazer algumas palestras para os noivos e, infelizmente, somente às vésperas do casamento. Em 18 de Fevereiro, o Papa lamentou: “para um Sacramento que é para toda a vida, três, quatro palestras…”

Mas também não é novidade que a Igreja nos pede uma preparação feita desde a infância e em família, passando em seguida pelas pastorais e movimentos paroquiais, nos encontros de namorados e culminando na formação e acompanhamento dos noivos.

Em 1981, na encíclica Familiaris Consortio, de João Paulo II, a Igreja foi convidada a estruturar o itinerário de formação em três etapas (você sabe quais são?). Mas em grande parte do Brasil, onde temos acompanhado algumas dioceses, estas três etapas não estão bem articuladas. A maioria dos noivos somente têm contato com uma delas que, em geral, se resume em um curso de fim de semana com palestras sobre alguns temas e, infelizmente, em data próxima da data da celebração do Matrimônio. Não somente a Familiaris Consortio, mas outros documentos já nos apontam o caminho há anos como o documento Preparação para o Sacramento do Matrimônio (1996) que nos ofereceu mais pistas, principalmente sobre o comprometimento com nossa formação, o conteúdo, a forma e a fidelidade ao Magistério da Igreja. É necessário formação constante, principalmente diante de tantas novidades em nossa sociedade.

A preparação também não deve se reduzir à etapa próxima (cursos ou encontros de noivos), mas deve se disseminar por todas as atividades paroquiais e contagiar as famílias. Na família, na catequese, na crisma, nos grupos de jovens e demais movimentos, o real sentido do namoro deve ser resgatado e os jovens devem ser encantados pela vida familiar como uma vocação. Quando namorados, precisam ter oportunidades para refletirem sobre a caminhada que realizam e sobre o futuro certo para quem namora sério: o Matrimônio. Precisamos investir nestes momentos de preparação remota, ainda bastante esquecidos por algumas equipes do conhecido setor pré-matrimonial.

E quando já estão se decidindo pelo Matrimônio, o Papa nos orienta que “a preparação dos que já formalizaram o noivado, quando a comunidade paroquial consegue acompanhá-los com bom período de antecipação, deve dar-lhes também a possibilidade de individuar incompatibilidades e riscos” (AL209).

Esta etapa,  a preparação próxima, deve caminhar em direção aos encontros de noivos por acolhimentos em pequenos grupos e de duração mais prolongada. Uma realidade presente há anos em algumas dioceses do Brasil, mas ainda desconhecida para muitas outras. Os encontros de dois ou três dias, com temas variados, condensados e cronometrados podem ser bons (e acredito que a maioria deles seja) mas deixam a desejar no atendimento daquilo que a Igreja propõe.

Para colaborar com os itinerários de preparação próxima, a Comissão Nacional de Pastoral Familiar acaba de publicar o subsídio Matrimônio – Encontros de Preparação. O livro, na perspectiva de acompanhar os noivos, propõe 11 encontros pedagogicamente organizados e com bom aprofundamento nos temas. Em cada encontro são ainda propostas variadas atividades a dois, que levam os noivos à momentos de reflexão e convívio.

O Papa Francisco nos orienta que as preparações próxima e remota “devem procurar que os noivos não considerem o matrimônio como o fim do caminho, mas o assumam como uma vocação que os lança para diante, com a decisão firme e realista de atravessarem juntos todas as provações e momentos difíceis.“ (AL211)

Mas, em seguida, àqueles que avançaram e se aproximam do altar, é necessária ainda a preparação imediata. Nesta “é importante esclarecer os noivos para viverem com grande profundidade a celebração litúrgica, ajudando-os a compreender e viver o significado de cada gesto” (AL213). Este é um momento também especial, que em geral fica comprometido por não haver tempo, uma vez que muitas paróquias promovem a preparação próxima quase às vésperas do casamento, inviabilizando a preparação imediata.
Para não ficar dúvidas, comento que a preparação próxima (encontros de noivos) deve ser finalizada até seis meses antes do casamento, mas sugiro que seja feita logo no início do noivado, pois ela favorece o discernimento do casal. É a preparação imediata que deveria acontecer nos meses próximos ao casamento.

E como acontecem estas três etapas em sua paróquia?

Aceitar os desafios de mudança e de implantação de nova estrutura é uma grande missão, mas um desejo da Igreja. Somente nos aproximaremos deste possível desejo quando nos organizarmos ainda mais, nos dispusermos à formação e assumirmos a pastoral em chave missionária que “exige o abandono deste cômodo critério pastoral: “fez-se sempre assim”.” (EG33)

AL – EXORTAÇÃO APOSTÓLICA PÓS-SINODAL AMORIS LÆTITIA, Papa Francisco, 2016

EG – EXORTAÇÃO APOSTÓLICA EVANGELII GAUDIUM, Papa Francisco, 2013

 

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André​ ​Parreira,​ ​da​ ​diocese​ ​de​ ​São​ ​João​ ​del-Rei-MG,​ ​é​ ​escritor​ ​sobre​ ​Matrimônio​ ​e​ ​família​ ​e membro​ ​da​ ​Assessoria​ ​Pedagógica​ ​da​ ​CNPF​ ​e​ ​INAPAF.