Preparação​ ​para​ ​o​ ​Matrimônio:​ ​​Algumas​ ​palestras​ ​e…​ ​pronto?

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Matéria da Revista Vida e Família

CNPF-CEPVF-CNBB

Maio-Junho-Julho / 2017 – Assine a revista aqui

Em 1981, o Papa João Paulo II afirmava que “a preparação dos jovens para o matrimônio e para a vida familiar é necessária hoje mais do que nunca”. O que dizer dessa necessidade nos tempos atuais, 36 anos após esta afirmação? E, em 1992, o Catecismo da Igreja Católica reforçou tal necessidade ao afirmar, entre outras coisas, que “a preparação para o casamento é de primeira importância” (CIC, 1632). Note que cada palavra é cuidadosamente colocada nos documentos da Igreja e aqui temos a expressão “primeira importância”. Entre várias prioridades da Igreja, preparar para o matrimônio está entre as maiores.

Não é por menos que o Papa Francisco comentou sobre a necessidade de maior empenhamento nesta missão (AL, 206), principalmente diante da realidade de muitas paróquias onde se preparar para o matrimônio significa somente ouvir algumas palestras e pronto! Precisamos comentar sobre esta realidade conhecida como Curso de Noivos, Encontro(s) de Noivos, Escola de Noivos, Encontro(s) de Preparação para o Casamento, Encontro(s) de Preparação​ ​para​ ​a​ ​Vida​ ​Matrimonial​ ​e​ ​outros.

É fato que esta é somente uma das três etapas da preparação, definida como Preparação Próxima, que “desenrola-se durante o período do noivado” (PSM32) e que deve ser precedida pela Preparação Remota e sucedida pela Preparação Imediata, conforme a exortação Familiaris Consortio de 1981. Aproveito para lembrar que a Preparação Remota começa no ventre e perpassa a vida até que um namoro esteja se transformando em noivado. Na outra ponta, a Preparação Imediata acontece “nos últimos meses e semanas que​ ​precedem​ ​as​ ​núpcias”​ ​(FC,​ ​66).

Entre uma variedade de nomes, temos por São João Paulo II, na Familiaris Consortio, uma excelente definição para a Preparação Próxima, a de catequese pré-matrimonial. “​Esta catequese renovada de todos os que se preparam para o matrimônio cristão é absolutamente necessária, para que o sacramento seja celebrado e vivido com retas disposições morais e espirituais.” (FC,​ ​66).

E o Papa Francisco retoma este conceito ao falar da preparação para o matrimônio na Amoris Laetitia, insistindo no acompanhamento dos noivos. Acompanhar é uma das palavras mais fortes na exortação, colocada 19 vezes em todo o texto. É o acompanhamento, por exemplo, que permite que os agentes conheçam melhor os noivos e estes se abram expondo suas dúvidas e inseguranças. “A preparação dos que já formalizaram o noivado, quando a comunidade paroquial consegue acompanhá-los com bom período de antecipação, deve dar-lhes também a possibilidade de individuar incompatibilidades​ ​e​ ​riscos.”​ ​(AL,​ ​209).

Aqui está um ponto que precisa de urgente atenção e até parece ser uma novidade, mas não é: embora ainda seja comum encontrar a preparação próxima reduzida a palestras e dinâmicas em encontros condensados em poucos dias, já se vão décadas que a Igreja afirma que “serão necessários encontros frequentes, num clima de diálogo, de amizade, de oração, com a participação de pastores e de catequistas” (PSM, 37). Diversas dioceses no Brasil e no Mundo já vivem a catequese pré-matrimonial através dos Encontros de Preparação para o Matrimônio, em pequenos grupos com reuniões semanais ou quinzenais durante alguns meses. Em 2017 completamos 50 anos que São João Paulo II iniciou na Polônia, quando bispo, os encontros de preparação​ ​com​ ​duração​ ​de​ ​um​ ​ano.

Então, o Papa Francisco não traz uma orientação nova, mas reforça uma antiga. Na Amoris Laetitia e também em diversas entrevistas e pronunciamentos, ele não poupa palavras ao fazer comentários como: “​Estou persuadido de que é necessário um verdadeiro catecumenato para o Sacramento do matrimônio, e não se limitar a fazer a preparação mediante duas​ ​ou​ ​três​ ​reuniões​ ​e​ ​depois​ ​ir​ ​em​ ​frente”*.

O Papa bem sabe, pois é exatamente isto que ainda acontece em alguns lugares. Poucas reuniões, cada uma com algumas palestras retocadas com salão​ ​bem​ ​ornamentado,​ ​músicas,​ ​jantar…

No entanto, não podemos dizer que as palestras não produzem frutos. Há excelentes palestras que cooperam com os objetivos da catequese matrimonial, provocando reflexão nos noivos e os fazendo rever suas posturas, confirmando a vocação, motivando ajustes na caminhada ou até mesmo levando-os a desistirem do noivado. Mas, posso dizer que elas não constituem a forma recomendada pela Igreja para este momento. Elas podem e devem continuar existindo na dinâmica paroquial e nas outras etapas da preparação. Isto fica claro quando o Papa Francisco diz que “habitualmente, são muito úteis os grupos de noivos e a oferta de palestras opcionais sobre uma variedade de temas​ ​que​ ​realmente​ ​interessam​ ​aos​ ​jovens”.​ ​(AL,​ ​208)

Com tanta clareza nas orientações da Igreja, fica difícil aceitar que fazer alguns períodos de palestras seja fazer catequese pré-matrimonial. Não acredito que seja possível acompanhar, conhecer e interagir com os noivos desta forma. E muito​ ​menos​ ​quando​ ​feito​ ​em​ ​um​ ​fim​ ​de​ ​semana​ ​no​ ​estilo​ ​“​fast​ ​food​”.

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André​ ​Parreira,​ ​da​ ​diocese​ ​de​ ​São​ ​João​ ​del-Rei-MG,​ ​é​ ​escritor​ ​sobre​ ​Matrimônio​ ​e​ ​família​ ​e membro​ ​da​ ​Assessoria​ ​Pedagógica​ ​da​ ​CNPF​ ​e​ ​INAPAF.

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PSM​ ​=​ ​Preparação​ ​para​ ​o​ ​Sacramento​​ ​do​ ​Matrimônio,​ ​Vaticano,​ ​1996 FC​ ​=​ ​Exortação​ ​Apostólica​ ​Familiaris​ ​Consortio,​ ​1981
AL​ ​=​ ​Exortação​ ​Apostólica​ ​Amoris​ ​Laetitia,​ ​2016
CIC​ ​=​ ​Catecismo​ ​da​ ​Igreja​ ​Católica,​ ​1992

*https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2017/february/documents/papa-francesco_20170225_corso-processo-matrimoniale.html